A psicose de Alfred

Mate o primeiro que aparecer pela rua — disse a voz grave.

Eram 5h da manhã. A rua ainda despertava devagar, mas eu sabia que não demoraria. Como sempre, naquele horário, os funcionários do frigorífico passariam pela Rua 9, apressados, com os passos duros e o olhar vazio de quem já se acostumou ao cheiro da carne. Ele queria mais. Sempre queria.

Eu ainda sentia o peso da noite anterior nos braços. A mulher ruiva… o machado descendo… o som. Fechei os olhos por um instante, tentando afastar a lembrança, mas ela não ia embora.

— Droga… — murmurei. — Estou cansado disso. Não quero mais receber ordens de ninguém.

Respirei fundo.

— Eu não quero mais fazer as suas vontades — disse, mais alto dessa vez, a voz falhando.

Você me deve mais sangue. Mais carne para o jantar.

A resposta veio imediata, rastejando pelo meu ouvido como um sussurro quente. Eu cerrei os dentes. Sentei na beirada da cama e fiquei olhando o papel de parede florido. Tons de verde. Mamãe escolheu. Sempre teve bom gosto… para coisas inúteis dizia papai.

Ela não aprova o que eu faço. Nunca aprovou. Às vezes, ela fala comigo. Baixinho. Quase como um segredo. Mas quem manda na casa é o papai. E o papai nunca aceita um “não”.

Levantei devagar. O machado estava onde eu o deixara, encostado na parede, ao lado da porta. Meus dedos envolveram o cabo com familiaridade. Atravessei a casa em silêncio. Na cozinha, peguei uma laranja — não porque queria, mas porque precisava parecer normal. Como uma pessoa comum. Como alguém que ainda pertence ao mundo lá fora. Voltei, abri a porta e me sentei nos degraus do alpendre. Esperei. O tempo passou arrastado. Pesado. Até que ele apareceu.

Um homem. Alto. Magro. Jovem. Passos rápidos. Perfeito. Joguei a laranja no arbusto e respirei fundo. Meu rosto se moldou sozinho — desespero, urgência, fragilidade. Eu já tinha feito aquilo antes.

— Por favor! — chamei. — Eu preciso da sua ajuda!

Ele parou. Sempre param. Expliquei sobre minha mãe, sobre a queda no banheiro, sobre a dor mortal que sentia, sobre a ida a farmácia e sobre ele ficar com ela por uns minutos. Minhas palavras saíam com tremor suficiente para convencer, mas controladas o bastante para não parecer exagero. Ele hesitou.

Olhou para o relógio, e sua expressão dizia que iria recusar meu pedido. Antes que ele abrisse a boca, eu forcei meu desespero, afirmando que ela estava chorando de dor e que eu já não suportava mais ouvir seus gritos e me sentir impotente. E funcionou. Sempre funciona. Ele entrou comigo.

Indiquei o quarto e pedi que fosse na frente. Disse que pegaria água. Ele acreditou. Eles sempre acreditam. Na cozinha, minhas mãos não tremeram. Já estava acostumado com aquilo. Peguei o machado.

Quando cheguei ao quarto, ele já estava abrindo a porta. Mamãe estava lá, sentada e imóvel enfrente sua mesa de costura. O homem sequer a viu com precisão. Quando o machado entrou em contato com o crânio, produziu um som seco. O corpo caiu antes mesmo de entender o que tinha acontecido. Fiquei parado por um instante, ouvindo o eco desaparecer pelas paredes da casa. Silêncio. Então a voz voltou. Satisfeita. Hoje, nossa mesa estará farta.

Arrastei o corpo para a cozinha. Minha parte estava feita. A partir dali Ele assumiria. Horas depois, a voz me avisou, arrastada e satisfeita:

Alfred, o jantar está pronto.

Sentei-me à mesa, e mamãe parecia relutante em se servir, como quase todas as noites. Seus olhos evitavam os meus, ou talvez evitassem o prato. Como um bom filho, eu sempre a ajudava a experimentar as saborosas comidas que papai preparava. Hoje, ele havia caprichado: risoto de fígado com ervilhas e patê de fígado. O cheiro era forte, metálico, quente demais para aquela hora.

Comecei a me servir. Papai explicava os pratos com um orgulho quase solene, como se estivesse diante de convidados importantes.

O fígado é o ingrediente principal desta receita, seguido do arroz, depois o caldo de legumes e as ervilhas… também coloquei queijo ralado para dar um charme. Você conseguiu um ótimo fígado desta vez, Alfred. Meus parabéns.

— Obrigado — respondi, surpreso. Ele nunca me elogiara antes.

Mamãe tremia. Não era um tremor leve — era contínuo, nervoso, como se algo dentro dela tentasse escapar. Arrastei minha cadeira até encostar na dela; o som da madeira raspando no chão pareceu alto demais. Toquei seu ombro. Estava frio.

Sussurrei palavras apaziguadoras, quase como um segredo, enquanto servia a comida em seu prato. O vapor subia devagar, serpenteando entre nós. E, como os pais fazem com crianças que não conseguem comer sozinhas, enchi a colher, fiz um pequeno aviãozinho e a levei até sua boca. Ela manteve os lábios cerrados.

— Vamos, mamãe… — murmurei, com paciência ensaiada. — Está gostoso. Você pode confiar em mim.

Por um instante, achei que ela fosse chorar. Mas, devagar, muito devagar, seus lábios se abriram.

Após o jantar pensei em finalmente descansar. Desta vez eu tinha conseguido um corpo saudável e teríamos muita comida por uns dias. Então por esses breves dias eu poderia viver como um homem comum e completamente normal. Que sensação boa. Deitei na minha cama sentindo um alivio profundo. Mas minha paz não durou nem cinco minutos.

Alfred… — chamou a voz arrastada de papai, ecoando pela casa como um sussurro pesado.

Um mau pressentimento invadiu meu corpo de forma súbita, como um choque frio. Fraquejei. Meu estômago se revirou. Eu sabia que precisava me levantar, precisava ir até ele… mas meu corpo resistia, como se cada músculo implorasse para ficar parado. Mesmo assim, com um esforço doloroso, consegui me pôr de pé. Esperar um segundo chamado seria meu fim. Caminhei até o escritório.

Abri a porta lentamente, tentando não fazer barulho. As dobradiças rangiam baixo, denunciando minha presença. Ele estava sentado, imóvel, pensativo, como uma estátua. Não olhou para mim quando entrei. O silêncio era sufocante. Aproximei-me da mesa com as mãos juntas em frente ao corpo, tentando conter o tremor.

— O senhor chamou?

Ele demorou alguns segundos antes de responder.

— Sabe, Alfred… eu nunca coloquei muita fé em você.

A voz dele era calma. Calma demais.

— Desde que o vi, ainda bebê, nos braços de sua mãe, algo já me dizia que você era uma perda de tempo. Mas ela insistiu em ficar com você…

Ele fez uma pausa, como se saboreasse cada palavra.

— E olha só você agora. Um homem feito… inútil. Incapaz de se virar sozinho. Incapaz de fazer qualquer coisa com o mínimo de perfeição…

Meu peito apertou.

— …exceto hoje mais cedo.

Meu olhar vacilou.

— Ah, querido Alfred… você foi impecável. — Um leve sorriso surgiu em seus lábios. — Consegui aproveitar tudo daquele corpo.

Um arrepio percorreu minha espinha.

— E por isso chamei você aqui. Quero lhe dar uma recompensa. Depois de tantos anos assistindo ao seu fracasso… nada mais justo do que honrar, finalmente, alguma conquista sua.

Minha garganta secou.

— Nossa… eu fico lisonjeado… — minha voz falhou — …sem palavras.

Ele se levantou devagar e apontou para a porta. Obedeci.

Saímos em silêncio, atravessando o quintal escuro. O som dos nossos passos na terra parecia alto demais. O pequeno galpão nos aguardava, isolado, como se escondesse algo que não deveria existir. Minhas mãos tremiam ao destrancar o cadeado. Entramos. Acendi a luz. E o mundo pareceu parar.

Mamãe estava estirada sobre uma mesa de madeira. Imóvel, nua e pálida. Os cabelos espalhados como raízes mortas. O peito subia e descia lentamente — viva… mas distante. Apagada.

— O que… o que significa isso? — minha voz saiu quebrada.

— Vou lhe dar o que tenho de mais valioso — disse ele, com orgulho. — Conhecimento anatômico.

Meu coração disparou.

— Você já está crescido. Sua velha mãe não me serve mais na cama… e sequer consegue limpar a casa por causa daquela maldita coluna.

Ele se aproximou dela, como quem observa um objeto.

— Ela será uma ótima cobaia, não acha, Alfred?

Meu corpo gelou. Ele virou o rosto para mim. Seus olhos… havia algo errado neles. Um brilho vivo demais. Profundo demais. Alucinado. Comecei a recuar.

— Pare. — A voz dele cortou o ar.

Congelei.

— Venha até aqui.

Eu sabia o que aconteceria se não obedecesse. Já sabia. Meu corpo lembrava. Engoli em seco e caminhei, cada passo mais pesado que o outro. Ele estendeu um bisturi. O metal refletia a luz com frieza.

— Comece daqui — disse, apontando para o peito dela.

Minha mão tremia tanto que mal consegui segurar o instrumento. Eu não me movi. O silêncio se partiu.

— FAÇA.

Não consegui. Em um movimento brusco, ele agarrou minha mão com força.

— Você não aprende…

E então puxou. A lâmina deslizou. Do peito… até o abdômen. O som foi baixo e úmido. Meu estômago virou. O cheiro veio logo depois, quente e metálico. Eu vomitei em seguida.

— Você é um fraco de merda! — ele gritou, a voz agora distorcida, irreconhecível. — Merece morrer também!

Antes que eu pudesse reagir, ele avançou sobre mim.

 

***

 

— Onde está o corpo? — indagou o delegado a um dos policiais que estavam no local.

— Estirado sob uma mesa de madeira, dentro do galpão.

O delegado entrou e, ao se aproximar da mesa, viu o corpo de um homem de aproximadamente 45 anos, com um corte profundo no abdômen e outro na garganta. No chão, ao lado direito, havia um bisturi ensanguentado sobre vômito já seco. Não havia marcas de outros sapatos, a não ser as de Alfred Braz, no caminho do quintal que levava ao galpão. A casa estava suja, porém organizada de forma quase obsessiva. Nada fora do lugar. No freezer, os policiais encontraram órgãos humanos separados em porções. Dentro de um tacho com água ainda morna, havia pele humana.

— Isso aqui… — murmurou um dos agentes, engolindo em seco.

O delegado permaneceu em silêncio, observando o corpo sobre a mesa.

Alfred morava sozinho desde que seus pais morreram, há 20 anos, em um acidente de carro do qual ele foi o único sobrevivente. Vizinhos relataram que Alfred quase não saía de casa, não falava com ninguém e que, por vezes, foi visto, através da janela da frente, falando sozinho.

Como se discutisse com alguém.

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