Ao cair da noite, o vento uivava alto e assobiava ao passar pelos fios de alta tensão presos ao poste em frente à minha casa. Uma velha casa sem reboco, da qual ninguém parecia se interessar — a não ser um João-de-barro que decidiu construir seu ninho na janela da minha.
Certa vez, um garoto atrevido que se pendurou na minha janela disse que a imagem da minha televisão era mais embaçada que óculos molhados na chuva. Ainda completou, rindo, que eu tinha o privilégio de possuir um museu ligado na tomada. Senti-me ofendido. Afinal, aquela televisão era uma das poucas alegrias que ainda restavam na minha vida. Mas, no fundo, o garoto tinha razão. Hoje, porém, foi o dia de quebrar o costume. Às 20h30, eu não estava sentado diante da televisão. Naquela noite em que o vento parecia gritar lá fora, eu caminhava lentamente em direção à despensa.
Ao redor da minha casa sem reboco, foram construídas casas lindas, que pareciam ter vida própria. Às vezes, quando eu já estava fatigado de ficar no quintal, pegava minha boa e velha cadeira de macarrão azul-escuro e me sentava na frente da casa. Observava todo tipo de gente indo e vindo pela rua: uns a pé, outros em seus automóveis — mas nunca um velho como eu. Sim, passavam velhos por ali, mas sempre acompanhados, nunca sozinhos. Eram 20h45, e eu ainda procurava o frasco na despensa. Quando se fica velho, a visão já não é como antigamente.
Lembro-me da época em que minha visão era perfeita; eu enxergava o mundo com uma precisão quase cruel. Nada me escapava — nem mesmo os poros da minha amada Adelina, no dia em que a conheci. Céus… como ela era linda. Aposto o pouco que ainda me resta de vida, caro leitor, que Adelina foi a mais bela mulher que já caminhou por esta terra. Seus cabelos ondulados tinham a cor do mel ao entardecer; seus olhos, profundos e escuros, lembravam jabuticabas maduras, e havia neles um abismo do qual eu jamais desejei escapar. Eu me perdia, voluntariamente, naquelas íris — e como eu me perdia.
Sua pele, macia e quente, não apenas me aquecia nos dias calorosos, mas também me fazia esquecer que o mundo lá fora existia. Todas as noites, eu me aconchegava ao seu lado, em nossa cama, como quem se abriga do próprio tempo. Hoje… tudo o que me resta é a lembrança. E uma pequena fotografia 3×4, já desgastada pelos anos, que guardo na carteira como um relicário profano. Ela permanece envolta no papel do último bilhete que Adelina me escreveu — palavras que se recusam a morrer, mesmo depois dela. Agora, todas as noites, deito-me na mesma cama que um dia foi nosso ninho de amor. Mas já não há calor, nem abrigo, nem vida. Apenas o frio, que se arrasta pelos lençóis como uma presença silenciosa… e um cobertor solitário que jamais consegue me aquecer.
Ao redor da minha casa sem reboco, foram construídas casas lindas, que pareciam ter vida própria. Às vezes, quando eu já estava fatigado de ficar no quintal, pegava minha boa e velha cadeira de macarrão azul-escuro e me sentava na frente da casa.
Observava todo tipo de gente indo e vindo pela rua: uns a pé, outros em seus automóveis — mas nunca um velho como eu. Sim, passavam velhos por ali, mas sempre acompanhados, nunca sozinhos. Eram 20h45, e eu ainda procurava o frasco na despensa. Quando se fica velho, a visão já não é como antigamente.
O relógio da cozinha rompeu o silêncio com um “DONG…” grave e arrastado — um som pesado, quase zombeteiro — anunciando que eram 21h e debochando de um velho quase cego que já estava há meia hora à procura de um pequeno frasco em um ambiente de pouca luz. Se ao menos Luizinho, o menino atrevido, estivesse por essas bandas, eu pediria ajuda. Mas ele só aparece nas horas mais inconvenientes possíveis. Certa vez, eu saía do banheiro, ainda molhado de um banho gelado, quando ele entrou pela porta dos fundos e se sentou à mesa estreita da cozinha. Ao ver os buracos na minha toalha velha, fez piada — e gargalhou alto.
Minha velha toalha… jamais a trocaria por uma nova. Esta carrega meu nome, bordado pelas mãos da minha amada Adelina. De repente, senti um sopro frio na orelha direita. Algo passou por mim.
Olhei para cima — e lá estava: a coisa girando ao redor da lâmpada amarelada, traçando círculos inquietos. Um morcego. Saí do cômodo às pressas e fui até o quintal buscar meu facão. Precisava dar um fim àquele bicho. Adelina sempre implorava por isso. E, desde que ela partiu, nunca deixei de atender aos seus desejos… mesmo na ausência. Tentei acertá-lo. Errei. Minha visão falha, minhas mãos trêmulas — tudo conspirava contra mim. Insisti até os braços cederem. Nada. Por fim, abri a porta e, quase em súplica, rezei para que fosse embora. E foi. Como se tivesse entendido. A criatura atravessou a escuridão e desapareceu no mundo lá fora. Agora, restava apenas o silêncio… e o maldito frasco.
Em um acesso de impaciência, comecei a derrubar tudo da prateleira no chão e a abrir as caixas velhas, que já se desfaziam com o tempo. Minhas costas doíam, latejavam — mas isso seria resolvido assim que eu encontrasse o frasco. Todas as minhas dores seriam silenciadas. Só percebi quanto tempo havia passado quando o relógio soou novamente na cozinha. Eram 22h. E o maldito frasco continuava desaparecido.
Comecei a rir. Primeiro baixo… depois mais alto… até virar uma gargalhada descontrolada. Eu soava como um velho louco. Então me veio uma lembrança. O dia em que Adelina perdeu, dentro desta pequena casa, sua agulha de bordado preferida. Céus… como procuramos. Reviramos cada canto, cada gaveta, cada fresta. Horas a fio desperdiçadas naquela busca inútil.
Quando a noite caiu, Adelina se sentou no chão, junto à porta da frente, e gritou:
— Eu desisto… eu me rendo… jamais encontraremos.
Eu me joguei na cadeira de macarrão azul, tirei o chapéu da cabeça e concordei. Estávamos suados, exaustos… famintos. Ela então se levantou, decidida a tomar um banho. E gritou novamente.
— Ai! Algo me picou!
Levou a mão ao bolso do vestido florido… e lá estava a agulha. Rimos como loucos naquela noite. E agora… sou eu quem ri. Rio ao perceber que, assim como a agulha de Adelina não estava em algum lugar da casa, o frasco não estava na despensa. Nunca esteve.
Segui até a cozinha. Arrastei uma cadeira de couro de boi e subi nela, lentamente, para alcançar a parte mais alta do armário de madeira. E lá estava ele. O maldito frasco. Enchi um copo com água da torneira. Minhas mãos tremiam. Abri o frasco. E bebi. Engoli tudo. Sem hesitar. Sentei-me no chão e recostei as costas doloridas na parede sem reboco da cozinha. Minha visão, que já era fraca… começou a falhar.
As formas se desfizeram.
A luz morreu.
E tudo ficou preto.

achei incrível, foi uma leitura muito leve e fácil de entender
Obrigada por estar aqui e ter lido meu conto. Em breve posto o próximo.
Ai que triste kkk não esperava esse final 😢 mas a leitura é ótima, vc escreve muito bem. Ansiosa pelos próximos contos!
Obrigada por ter lido <3