O caso Melina

Melina e eu costumávamos brincar na rua todos os dias depois que chegávamos da escola. Nossas brincadeiras preferidas eram jogar peteca, carrinho de rolimã e pau na lata. E, naquela tarde quente de verão, era carrinho de rolimã. O sol parecia derreter o asfalto, e o ar tremia sobre a rua vazia. Nós subíamos a ladeira que ficava na esquina com a nossa rua e descíamos animados, aos gritos, várias vezes, como se nada no mundo pudesse nos acontecer. Em todos os anos em que conhecia Melina, nunca tínhamos tido nenhum incidente com nossas brincadeiras. Nunca. Exceto naquele dia.

Hoje, sendo um adulto de 35 anos, entendo que aquele incidente não foi um acidente. O destino de Melina já estava traçado. Já tinha sido determinado assim… muito antes de nós dois subirmos aquela ladeira. Estávamos na metade do percurso quando a roda dianteira do carrinho de Melina se soltou com um estalo seco. Ela perdeu o controle e saiu rolando ladeira abaixo, o corpo batendo contra o chão quente, leve demais, desengonçado… como uma boneca de pano jogada fora. Direcionei meu carrinho para onde ela estava indo, o coração disparado no peito. Ela parou de rolar bem em frente a um barranco que ficava próximo da minha casa.

— Está tudo bem? — perguntei, antes mesmo de levantar do meu carrinho. — Você se machucou muito?

— Só alguns arranhões. Nada demais — disse ela, como se aquilo fosse insignificante demais para merecer atenção.

— Ufa! — levei a mão ao peito. — Eu achei que você ficaria esbagaçada.

Ela não respondeu. Ficou em silêncio. O olhar preso… fixo… em direção ao barranco. Havia algo naquele silêncio que me incomodou. Deitei-me ao lado dela, na beirada, e então vi o que tinha prendido sua atenção. A casa.

Uma velha casa que, há anos, não era habitada por ninguém. Pelo menos… era o que todos diziam. Ninguém sabia a quem pertencia. Ninguém chegava perto. Ninguém comentava muito sobre ela. E, olhando dali de cima… parecia ainda mais errada.

— Alguém já morou nessa casa antes? — perguntou Melina, num tom estranho, quase hipnotizado.

— Não — respondi. — Não desde que eu nasci, pelo menos.

— Mas tem móveis… e tudo. Olha lá — apontou para baixo —, tem brinquedos na frente da casa.

A forma como ela disse “brinquedos” me deu um arrepio.

— Meus pais disseram que ninguém mora aí desde que eles se mudaram.

— Então agora deve ter alguém — afirmou, com uma certeza que não fazia sentido.

— Impossível — retruquei. — Nós saberíamos. A casa é tão silenciosa e suja… como alguém poderia viver nessas condições?

O silêncio ao redor parecia concordar comigo. Nenhum vento. Nenhum inseto. Nenhum som.

— Vamos até lá para ver — disse ela, animada demais… curiosa demais.

— É perigoso. A terra pode ceder e a gente ficar soterrado.

— Ah, por favor… para de ser tão medroso. Não chove há dias. Quais as chances de o barranco ceder nesse sol de 40 graus?

Ela tinha um ótimo argumento. Mas algo dentro de mim, uma sensação incômoda, pesada, dizia que aquilo era uma péssima ideia.

— Essa sua curiosidade vai acabar te matando algum dia… e eu não quero ser uma das vítimas também.

Ela sorriu de lado e desceu. Sem hesitar. Eu fui atrás, mesmo sem querer. Deixá-la sozinha parecia pior. Descemos o declive com cuidado. A terra estava seca, mas estranhamente firme demais, como se nunca tivesse sido tocada. Quando chegamos lá embaixo, a sensação foi imediata. Errada. Era como estar dentro de uma cratera aberta por algo que não pertencia àquele lugar. O quintal era amplo, arborizado, mas não havia uma única folha no chão. Nenhuma. Como se o tempo não passasse ali. A casa era simples, sem reboco, com paredes cruas, mas intacta demais para algo abandonado. Melina forçou a maçaneta. A porta se abriu sem resistência. Como se estivesse esperando. Entramos.

O ar lá dentro era pesado, parado… antigo. Apesar da poeira fina cobrindo tudo, cada objeto estava perfeitamente alinhado, organizado demais, como se alguém ainda se importasse. Como se alguém ainda estivesse ali. A casa não tinha mais que cinco cômodos. No quintal, do lado direito, havia uma casinha de cachorro feita de tijolos. Grande demais. Um cobertor cobria a entrada, levemente dobrado. Aquilo não fazia sentido. Nada fazia. De repente, ouvi minha mãe chamando por mim, distante.

— Droga! — falei, nervoso. — Se ela me ver saindo daqui, vai me matar.

— Calma… fica quieto e espera ela subir a rua.

A voz de Melina soou tranquila demais. Como se nada estivesse errado. Concordei. Era minha melhor chance. Cinco minutos depois, comecei a subir o barranco. Cada passo parecia mais pesado que o anterior. Antes de ir, olhei para ela. Ela não veio. Nem parecia que pretendia.

— Você não vem?

— A gente não terminou de explorar tudo. Vou ficar mais um pouco… — ela fez uma pausa — quero ver a parte dos fundos.

Aquilo me incomodou mais do que deveria.

— A gente pode voltar amanhã… juntos — sugeri, já arrependido de estar indo embora.

— Pode ir. Vai ser rápido. À noite eu passo na sua casa e te conto o que achei.

Ela sorriu. Mas… não foi o mesmo sorriso de sempre.

— Tá bom.

Subi e fui embora.

 

***

Melina não apareceu à noite. Não apareceu na manhã seguinte. Não apareceu na escola à tarde. E foi aí que o medo começou a ganhar forma. Quando saí da escola, fui direto para a casa dela. A mãe de Melina abriu a porta com o rosto já tomado pelo desespero. Ela não tinha voltado para casa, desde o dia anterior. Um arrepio frio percorreu minha espinha. Contei tudo. Cada detalhe. E, enquanto eu falava, percebi o olhar da mãe dela mudar, como se, no fundo, ela já soubesse que algo estava muito errado. A polícia foi chamada. Minutos depois, estávamos dentro de uma viatura, indo em direção ao barranco. À casa. Abandonada… será mesmo?

Os policiais desceram primeiro. Eu fiquei em cima, gritando o nome de Melina, a voz falhando, o peito apertado. As pessoas começaram a se juntar ao redor. Sussurros. Olhares. Tempo demais passou. Até que um dos policiais voltou, rápido e apressado. Entrou na viatura e pegou o rádio com mãos que não pareciam tão firmes quanto deveriam.

— Um corpo foi encontrado… — disse. Houve uma pausa, longa demais. — …e mais dois restos mortais.

Todos nós ficamos aflitos. A mãe de Melina chorava descontroladamente. O pior havia se confirmado. Um peso esmagador caiu sobre mim. Comecei a me sentir culpado por tê-la deixado para trás. Talvez, se eu estivesse com ela… ela… ela não teria…

Minha mente travou, incapaz de concluir aquilo que meu coração já sabia.

Quando a perícia chegou, os policiais afastaram os curiosos e isolaram o local. A mãe de Melina precisou ser atendida pelos paramédicos, chamados após seu primeiro desmaio. Quanto a mim, permaneci imóvel, com os olhos cravados naquela casa. Tudo em mim parou — exceto o coração, que batia descompassado, como se quisesse fugir do peito.

Horas depois, iniciaram a retirada dos corpos. O primeiro foi o de Melina. Eu soube. Não precisei ver seu rosto. O tamanho do saco preto, semelhante ao meu naquela época, foi o bastante para que a verdade me atravessasse como uma lâmina.

Quando passaram por mim, um frio profundo percorreu meu corpo, e um nó se formou no meu estômago. A mãe dela teve outra crise de choro e desmaiou novamente. Levaram-na de volta para casa e, de quebra, me levaram também. Como ainda não sabiam quem estava por trás daquilo, consideraram perigoso que um garoto de 13 anos voltasse sozinho.

No dia seguinte, acordei cedo e fui até a casa de Melina. A polícia ainda estava lá. Tentaram me impedir de entrar, mas a mãe da minha querida amiga, com a voz fraca e os olhos inchados, permitiu que eu ficasse.

Foi então que um homem baixo e rechonchudo, dono de um bigode que lembrava uma lagarta de mariposa peluda, começou a explicar o que haviam descoberto. Segundo a autópsia, Melina fora asfixiada. Depois seu corpo havia sido usado em um ritual, como oferenda. Aquelas palavras ecoaram dentro de mim, irreais e pesadas.

Eles chegaram a essa conclusão por causa do que encontraram nos fundos da casa: objetos organizados com precisão quase obsessiva, velas consumidas até a base, pedras dispostas em padrões estranhos, símbolos satânicos marcados no chão e um altar.

As outras vítimas ainda estavam sendo identificadas.

A mãe de Melina desabou mais uma vez. Tentei consolá-la, mas minhas mãos tremiam, e minhas palavras não encontravam forma. Eu também estava perdido, tentando entender como tudo podia ter mudado tão rápido — como uma tarde comum de verão havia se transformado em algo irreversível.

Vinte anos se passaram desde aquela fatídica tarde quente de verão… e o responsável nunca foi encontrado.

Eu nunca esqueci Melina.

Foi por causa dela que escolhi o Direito. Foi por causa dela que me tornei investigador criminal.

E, entre um caso e outro, ainda há algo que nunca abandonei:

A busca pelo assassino da minha amiga.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Rolar para cima